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ANPUH-RS Lamenta a Morte de João Batista Marçal

ANPUH-RS Lamenta a Morte de João Batista Marçal


 


Neste 23 de fevereiro de 2018, a ANPUH-RS amanheceu consternada e enlutada com o falecimento do grande João Batista Marçal, o "índio de Quarai", como gostava de ser chamado. Líder Estudantil Secundarista, Radialista, Jornalista, Metalúrgico e Sindicalista, era um Veterano Militante Socialista, com simpatias deste a juventude pelo anarquismo. Nascido em 1941, no meio do Estado Novo, na bela cidade da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, a "Terra dos escritores" como Dyionélio Machado, Cyro Martins, Lilla Ripoll, Carlos Reverbel, Luiz Menezes e Márcia Barbosa, entre outros,  Marçal foi um incansável pesquisador dos movimentos operário e sindical do Rio Grande do Sul, além de um voraz guardador da memória destes e de outros movimentos sócio-políticos.


Da sua pena saíram mais de 20 obras de referência para todos nós historiadores, com destaque para Primeiras lutas operárias no RS (1985), Comunistas gaúchos: a vida de 31 militantes da classe operária (1986), Os anarquistas no Rio Grande do Sul. (1995), Um século de socialismo no Pampa: história visual do PSB/RS (1999),  Comerciários fechem as portas para descansar: a luta dos comerciários brasileiros pelo descanso semanal (s/d), Memória histórica dos socialistas gaúchos (s/d) eo Dicionário ilustrado da esquerda gaúcha: anarquistas, comunistas, socialistas e trabalhistas (em conjunto com Marisângela Martins, 2008) - este também lançado nas V Jornadas Regionais do GT Mundos do Trabalho, em 2009, em Porto Alegre -, Memória histórica da Imprensa de Uruguaiana: um painel da cultura uruguaianense (2017), entre outros.


Seu acervo particular, provavelmente o maior do gênero no Rio Grande do Sul, situado em sua casa, em Viamão, era um espaço público e local privilegiado de investigação de muitos de nossos associados, especialmente os colegas dos GTs Mundos do Trabalho, História Política e História e Marxismo.   Composto por riquíssimas coleções de jornais, panfletos, fotografias e outros documentos da luta social e de suas organizações, sempre foram generosamente ofertados a quem deles precisasse, fazendo com que, quem ali chegasse, se sentisse no meio da produção histórica daqueles que foram sujeitos da resistência trabalhadora, da mesma forma quando o seu acervo esteve disponível ao público, em uma sala de pesquisas na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.


Como radialista, de voz grave e intensa, sempre denunciou a repressão político-policial de governos e seus beleguins, o que o levou a mais de vinte prisões após o Golpe de 1964, e, algumas delas sofrendo severas torturas, o que lhe renderam um grave problema em um dos braços para o resto de sua vida, histórico que pode ser visto em parte em seu dossiê na documentação da Comissão do Acervo da Luta contra a Ditadura (APJMB). Mesmo assim resistiu e não se constrangia em denunciar seu sofrimento pessoal diante daqueles tempos, o que o levou a problemas financeiros, materiais e de relacionamentos pessoais, mas nunca se vergando aos opressores de plantão. No final dos anos 1970, apresentando o Itaí, a Dona da Noite, em Guaíba Marçal divulgava as músicas do canto popular latino-americano e declamava poesias, que chamava de "rebeldes_x0094_, nas madrugadas do rádio, procurando burlar a perseguição das autoridades policiais da Ditadura, sempre demonstrando compromisso com os pobres, os trabalhadores do campo e da cidade, na mais pura tradição do "gaúcho a pé", cuja sina foi contada em prosa pelo seu conterrâneo Cyro Martins.


Respeitado pela academia, onde participou de incontáveis eventos, e pelo movimento sindical seja palestrando, debatendo ou produzindo pesquisas para as entidades, sua presença por onde passava era notada pela forma incisiva com que defendia seus argumentos, demonstrando sempre profundo conhecimento sobre o que tematizava, tornou-se uma referência para informações, dicas, diálogos e doações sempre solícitas para muitos de nós.   


Assim, a ANPUH do Rio Grande do Sul se solidariza com a família e seus amigos, diante desta perda irreparável para a História e a Historiografia Rio-Grandense, para o jornalismo e o radialismo do Rio Grande do Sul, afirmando para este grande lutador, em nome de cada integrante da nossa Associação, o que Tolstoi imortalizou: _x0093_cantas a tua aldeia e serás universal_x0094_. A nós que o conhecemos e aprendemos a admirá-lo, obrigado por tudo!


JOÃO BATISTA MARÇAL, PRESENTE!

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