Associação Nacional de História _x0096_ Seção Rio Grande do SUL _x0096_ ANPUH-RS
Relatório: Fórum de Coordenadores das Graduações em História do Rio Grande do Sul
A ANPUH-RS promoveu no dia 17 de dezembro de 2012, com apoio do Curso de História da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, uma reunião do Fórum de Coordenadores dos Cursos de Graduação em História do Rio Grande do Sul. Na ocasião foi convidado o professor Dr. Nilton Mullet Pereira para proferir a palestra: Reflexões sobre as novas diretrizes curriculares para o Ensino Médio: as propostas da SEC-RS.
Em consonância com a legislação Federal, em especial com a Resolução n. 2 de 30 de Janeiro de 2012 que Define Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul lançou suas diretrizes para a Organização Curricular do Ensino Médio Politécnico no estado. A urgência na iniciativa e sua implantação imediata foram justificadas. Tratou-se de uma ação estratégica no âmbito da SEDUC, que optou por um processo gradual, visando à completa implantação da Nova Estrutura Curricular (o 1ª ano em 2012; o 2ª ano em 2013; e o 3ª ano em 2014). Conforme documento governamental:
_x0093_A proposta basicamente se constitui por um ensino médio politécnico que tem por base na sua concepção à dimensão da politecnia, constituindo-se na articulação das áreas de conhecimento e suas tecnologias com os eixos: cultura, ciência, tecnologia e trabalho enquanto princípio educativo. Já a educação profissional integrada ao ensino médio se configura como aquisição de princípios que regem a vida social e constroem, na contemporaneidade, os sistemas produtivos. O objetivo é socializar, esclarecer e aperfeiçoar a proposta de governo._x0094_
Apesar das mudanças significativas que estão sendo introduzidas, a proposta teve aplicação imediata, o que significou a implementação da reforma já no primeiro ano do Ensino Médio em 2012, sem o devido preparo e diálogo com a sociedade.
A forma como os professores de história estavam vivendo esse processo de reforma e os inevitáveis impactos dessas mudanças na formação oferecida nos Cursos de História são questões fundamentais, que no Fórum anterior, realizado em julho de 2012, emergiram como problemas. Motivo pelo qual a Associação considerou por bem chamar essa nova reunião. O Rio Grande do Sul conta com 22 cursos e um número de doze representantes se fizeram presentes na reunião de dezembro.
Vamos referir de modo sintético algumas das mudanças instituídas pelo projeto do Governo Estadual, somente para que fiquem esclarecidas as preocupações e críticas dos professores da História, surgidas a partir dos relatos e nos diálogos mantidos pelos Coordenadores dos Cursos.
Na Proposta para o Ensino Médio Politécnico algumas questões impactam diretamente a atividade dos historiadores e, em especial, exigem alterações significativas no âmbito da formação desses professores, dentre elas destacamos:
- organização curricular por áreas do conhecimento - linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas.
- apoia-se no princípio da interdisciplinaridade.
- a pesquisa passou a ser assumida como princípio pedagógico.
- cria um novo componente curricular: Seminário Integrado, que deve ser realizado desde o primeiro ano, em complexidade crescente, integrando em termos de carga horária a parte diversificada do currículo.[1]
- projetos devem ser desenvolvidos nos Seminários Integrados, sendo de responsabilidade do coletivo dos professores.
- abre espaço para o dualismo: formação geral // formação profissional.
- superestima o valor da técnica e da tecnologia na ideia de formação.
Os relatos realizados por Coordenados ou por professores supervisores de estágios expressaram grande preocupação com a forma como o processo vem ocorrendo. A execução dessa proposta demanda uma formação interdisciplinar, a qual não é oferecida nos cursos de graduação em História (e muito provavelmente em nenhum outro curso de licenciatura em âmbito estadual), ao contrário, a tradição em termos de formação de professores é disciplinar e toda base epistemológica e teórica nesta formação está em consonância com a formação de um especialista, no caso de um historiador.
Outro aspecto destacado é a falta de orientação, o que foi agravado pelo pouco tempo de maturação da Proposta no meio educativo. Ressalta-se ainda que um novo sistema de avaliação foi introduzido e está sendo gradativamente implantado. A avaliação passou a ser expressa em conceitos descritivos (satisfatória; parcial; restrita), e os conceitos não são mais atribuídos às disciplinas, mas sim a cada uma das áreas de conhecimento em que as disciplinas foram reagrupadas.
A reforma do Ensino Médio não foi objeto de diálogo suficiente e a premência de sua implementação em caráter urgentíssimo comprometeu sua apropriação pelas unidades de ensino. Faltou construir o devido consenso em torno da proposta, fazer um trabalho de sensibilização nas escolas, além, é óbvio, de uma efetiva preparação dos professores para as novas funções que devem ou deverão desempenhar para que efetivamente a Reforma do Ensino Médio tenha êxito. Mudanças e transformações dos perfis profissionais não acontecem de um dia para o outro e nem podem ser puramente motivadas por medidas legislativas.
Cabe ressaltar que o Fórum de Coordenadores em nenhum momento se colocou contra mudanças na Educação, elas são necessárias, e bem vindas, mas desde que acompanhadas do devido diálogo com a comunidade escolar e acadêmica, permitindo uma efetiva participação, apropriação e comprometimento de todos os envolvidos no processo. Entretanto, na atual conjuntura, o que os profissionais que formamos estão vivendo na rede Escolar Pública é preocupante e desestimulador. Independente do caso vivenciado pelos professores do Rio Grande do Sul, somos favoráveis à discussão e amplo debate sobre a formação e atuação dos historiadores na sociedade, o que contempla especialmente a docência.
Dra. Marluza Marques Harres
Presidente da ANPUH-RS (Gestão 2012-2014)
[1] Cf. PROPOSTA PEDAGÓGICA PARA O ENSINO MÉDIO POLITÉCNICO E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL INTEGRADA AO ENSINO MÉDIO - 2011-2014. _x0093_Entende-se por formação geral (núcleo comum), um trabalho interdisciplinar com as áreas de conhecimento com o objetivo de articular o conhecimento universal sistematizado e contextualizado com as novas tecnologias, com vistas à apropriação e integração com o mundo do trabalho. Entende-se por parte diversificada (humana _x0096_ tecnológica _x0096_ politécnica), a articulação das áreas do conhecimento, a partir de experiências e vivências, com o mundo do trabalho, a qual apresente opções e possibilidades para posterior formação profissional nos diversos setores da economia e do mundo do trabalho._x0094_ p, 23.
